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terça-feira, 5 de julho de 2011
...E perto das flores do mato à beira da estrada haviam pessoas. E dentro delas haviam casas velhas à beira da estrada. E todas aquelas pessoas estavam assim presas, e por alguma razão isso não as incomodava.
Enquanto a chuva pisoteava as flores, elas jamais perceberam o vento.
E as horas eram levadas pelos carros que passavam. Num deles estava eu. E dentro de mim estavam as casas velhas com as flores à beira da estrada, pisoteadas pela chuva, e também estavam todas aquelas pessoas sentadas em bancos nas portas das casas, esperando os olhos que passavam. E também estavam todas as outras pessoas acima das flores, que tentam manter do lado de dentro o vento, toda a alma do vento.
Ziguezagueio na linha do horizonte, ando em círculos caleidoscópicos e a minha linha reta não passa de corda bamba, enquanto todos os meus alicerces permanecem estáticos. As músicas que me compõem permanecem as mesmas. E a cor dos meus olhos, depois de tudo que guardou, curiosamente não mudou.
Mínimas chuvas me encharcam.
quinta-feira, 30 de junho de 2011
..o caminho pode ser mais simples: não aceite nada que não venha para lhe dar mais paz.
*
*
*
O ser humano encontra exatamente tudo aquilo que procura. Não são maravilhosas as leis que regem o universo?
...Apenas para os que descobrem o poder que tem sobre sua vida, sobre cada segundo da sua vida.
Para tomar nas mãos o seu destino é preciso querer. E querer não é ter vontade.
Ter vontade é ilusão.
Querer é ação.
terça-feira, 31 de maio de 2011
e você diz que eu mudei...
mudei sim, amor,
eu mudo sempre.
(ai ai, eu não mudo nunca!)
************************************************
A dor muda.
A dor muda
A dor
muda.
eu mudo sempre.
(ai ai, eu não mudo nunca!)
************************************************
A dor muda.
A dor muda
A dor
muda.
domingo, 8 de maio de 2011
e que importa macularmos nossas asas na busca de uma pureza cada vez mais livre, se nos tornamos mais reluzentes a cada vôo cada vez mais alto, em busca de um céu que sabemos possível, aqui mesmo, ainda que todos digam o contrário...
enquanto houver beleza em toda tristeza, permaneço.
**********************************************
um dia o homem temeu o horizonte...nesse dia ele inventou paredes.
e ainda assim Deus insiste na fumaça e no asfalto só pra cantar à minha janela pelo coro dos pardais.
enquanto houver beleza em toda tristeza, permaneço.
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um dia o homem temeu o horizonte...nesse dia ele inventou paredes.
e ainda assim Deus insiste na fumaça e no asfalto só pra cantar à minha janela pelo coro dos pardais.
quinta-feira, 20 de janeiro de 2011
vórtice, vertigem, voragem: qualquer abismo nas estrelas de papel brilhante no teto
.
"Eu estava lá, no centro do furacão. E repito as palavras que são e não são minhas enquanto o porteiro do edifício em frente toca violão e canta, e a chuva desaba outra vez, e peço: por favor, me socorre, me socorre que hoje estou sentido e português, lusitano e melancólico. Me ajuda que hoje eu tenho certeza absoluta que já fui Pessoa ou Virgínia Woolf em outras vidas, e filosófo em tupi-guarani, enganado pelos búzios, pelas cartas, pelos astros, pelas fadas:
Me puxa para fora deste túnel, me mostra p caminho para baixo da quaresmeira em flor que eu quero encostar em seu tronco o lótus de mil pétalas do topo da minha cabeça tonta para sair de mim e respirar aliviado de por um instante não ser mais eu, que hoje não me suporto nem me perdôo de ser como sou e não ter solução. Me ajuda, peço, quando Excalibur afunda sem volta no lago.
– enquanto contemplo o céu no teto do meu quarto, girando intergaláctico em direção a ER-8, a estrela de 10 bilhões de anos, o cadáver insepulto para sempre da estrela perdida nos confins do Universo. Choro sozinho no escuro, você não enxuga as minhas lágrimas. Você não quer ver a minha infância. Solto nesse abismo onde só brilham as estrelas de papel no teto, desguardado do anjo com suas mornas asas abertas. Você não me ouve nem me vê, e se ouvisse e visse não compreenderia quando eu abrir os braços para Ela e saudar, amável e desesperado como quem dá boas-vindas ao terror consentido: voragem, voragem.
Voragem, vórtice, vertigem: ego. Farpas e trapos. Quero um solo de guitarra rasgando a madrugada. Te espero aqui onde estou, abismo, no centro do furacão. Em movimento, águas."
caio fernando abreu
**********************
Gosto de gente de cara lavada. de cheiro suave. cabelo ao vento. gosto de vozes que não traem as palavras que dizem. gosto de almas que me falam, mesmo quando a boca tente dizer o contrário.
Gosto de sentimentos expostos, peito aberto sem rodeios, sem temores. Ausência de medo de ser. Viver, muito além de existir. fluir ao invés de falar, ser antes mesmo de pensar. gente que não ensaia gestos, não
perde muito tempo no espelho, não escolhe muito a roupa que sabe tirar devagar, calça qualquer coisa.
gente autentica. dentro e fora de si, dentro e fora de casa.
gosto de olhos que jorram amor, escorrem alma, por todos os lados, mesmo que poucos possam ver.
gosto de quem sabe me ver.
Nenhuma lei me governa, e nenhuma parede me cabe, e nenhuma tribo me seduz, e nenhum estilo me limita, e nenhuma mentira me acorrenta, e nenhuma verdade me escraviza, e nenhum rótulo me define, e nenhuma palavra me traduz, e nenhum preconceito me cega, e nenhuma pessoa me retém, e nenhuma estrela me abduz, e nenhum passado me atrasa. Eu sou aquela que está por toda parte, que passa por tudo e em nada fica.
*******************************************
não digas a ninguém que sou triste, espelho meu
não digas que em mim já não existe
amor ou desamor
ou qualquer coisa que dure
não contes que não creio haver quem cure
que curar me possa da crueza
com que a vida atravessou-me
arrastou-me pelo chão
e hoje vejo mesmo beleza nessa imensa solidão.
a carregar o que sobrou tenho pesados os braços
nessa estrada chuvosa de escuro vento
cheira forte o meu cansaço
ao chamar do meu lamento
fria e parda, a lua desce
queima ainda a mesma dor
que o tempo muda de lugar
mas por dentro ainda grita. ensurdece.
calma e verdadeira, há uma lágrima que ainda é a primeira.
há a alma que se deixa rasgar, crua.
e o olhar no espelho diz-me quem sou.
vãs tentativas sob a mesma lua.
.
"Eu estava lá, no centro do furacão. E repito as palavras que são e não são minhas enquanto o porteiro do edifício em frente toca violão e canta, e a chuva desaba outra vez, e peço: por favor, me socorre, me socorre que hoje estou sentido e português, lusitano e melancólico. Me ajuda que hoje eu tenho certeza absoluta que já fui Pessoa ou Virgínia Woolf em outras vidas, e filosófo em tupi-guarani, enganado pelos búzios, pelas cartas, pelos astros, pelas fadas:
Me puxa para fora deste túnel, me mostra p caminho para baixo da quaresmeira em flor que eu quero encostar em seu tronco o lótus de mil pétalas do topo da minha cabeça tonta para sair de mim e respirar aliviado de por um instante não ser mais eu, que hoje não me suporto nem me perdôo de ser como sou e não ter solução. Me ajuda, peço, quando Excalibur afunda sem volta no lago.
– enquanto contemplo o céu no teto do meu quarto, girando intergaláctico em direção a ER-8, a estrela de 10 bilhões de anos, o cadáver insepulto para sempre da estrela perdida nos confins do Universo. Choro sozinho no escuro, você não enxuga as minhas lágrimas. Você não quer ver a minha infância. Solto nesse abismo onde só brilham as estrelas de papel no teto, desguardado do anjo com suas mornas asas abertas. Você não me ouve nem me vê, e se ouvisse e visse não compreenderia quando eu abrir os braços para Ela e saudar, amável e desesperado como quem dá boas-vindas ao terror consentido: voragem, voragem.
Voragem, vórtice, vertigem: ego. Farpas e trapos. Quero um solo de guitarra rasgando a madrugada. Te espero aqui onde estou, abismo, no centro do furacão. Em movimento, águas."
caio fernando abreu
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Gosto de gente de cara lavada. de cheiro suave. cabelo ao vento. gosto de vozes que não traem as palavras que dizem. gosto de almas que me falam, mesmo quando a boca tente dizer o contrário.
Gosto de sentimentos expostos, peito aberto sem rodeios, sem temores. Ausência de medo de ser. Viver, muito além de existir. fluir ao invés de falar, ser antes mesmo de pensar. gente que não ensaia gestos, não
perde muito tempo no espelho, não escolhe muito a roupa que sabe tirar devagar, calça qualquer coisa.
gente autentica. dentro e fora de si, dentro e fora de casa.
gosto de olhos que jorram amor, escorrem alma, por todos os lados, mesmo que poucos possam ver.
gosto de quem sabe me ver.
Nenhuma lei me governa, e nenhuma parede me cabe, e nenhuma tribo me seduz, e nenhum estilo me limita, e nenhuma mentira me acorrenta, e nenhuma verdade me escraviza, e nenhum rótulo me define, e nenhuma palavra me traduz, e nenhum preconceito me cega, e nenhuma pessoa me retém, e nenhuma estrela me abduz, e nenhum passado me atrasa. Eu sou aquela que está por toda parte, que passa por tudo e em nada fica.
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não digas a ninguém que sou triste, espelho meu
não digas que em mim já não existe
amor ou desamor
ou qualquer coisa que dure
não contes que não creio haver quem cure
que curar me possa da crueza
com que a vida atravessou-me
arrastou-me pelo chão
e hoje vejo mesmo beleza nessa imensa solidão.
a carregar o que sobrou tenho pesados os braços
nessa estrada chuvosa de escuro vento
cheira forte o meu cansaço
ao chamar do meu lamento
fria e parda, a lua desce
queima ainda a mesma dor
que o tempo muda de lugar
mas por dentro ainda grita. ensurdece.
calma e verdadeira, há uma lágrima que ainda é a primeira.
há a alma que se deixa rasgar, crua.
e o olhar no espelho diz-me quem sou.
vãs tentativas sob a mesma lua.
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segunda-feira, 17 de janeiro de 2011
Os dispostos se atraem
.
Você me adivinha estranhamente como se eu fosse toda escrita em um alfabeto tão seu. E diante dos seus olhos estranhamente vivos me vejo completamente transparente e vulnerável, nessa estranha certeza absoluta que temos um do outro e que nem mesmo nossas palavras e ações conseguem confundir.
E a verdade é que vou me inebriando disso tudo que é você, a verdade é que esse perigo que é você vem dominando sem achar resistência um a um dos meus pensamentos, embora eu evite a qualquer custo que chegue o dia em que nenhum deles mais me pertença. Então fugimos, recuamos, calamos, pela ansiedade de tanto a dizer ainda quando as palavras acabam, na esperança que nossos silêncios encharcados um do outro falem o que não conseguimos.
Calamos mas são nossos silêncios que dizem tanto e nos denunciam ainda mais do que o seria capaz qualquer palavra, e cada frase incompleta ou fugitiva ainda mais me trai e me arrasta pela rede a tão distante para me dispor inteiramente em suas mãos e esperar que me leves a qualquer parte ou em parte alguma.
E me vejo organizando as frases que tenho pra te dizer a espera de que me encontres nesses sutis enigmas e já admito ser impossível recuar, quanto mais tento ao perceber quão absurda é a ousadia do teu veneno, sou impulsionada a te buscar nas páginas do que me disseste, nas palavras que abandonas displicente, nas músicas tão suas em busca de que uma me mostre aquilo que você sutilmente adivinha , sem suportar a idéia de que possa crescer algo assim tão sorrateiro, embora vejamos completamente inevitável que tantos caminhos tortos possam terminar apenas um diante do outro, tão claramente que não foi possível perceber antes.
Mas diante desse doce imenso mar de carinho que não consigo conter dentro de mim e que começa a escorrer dos teus olhos quando me levas a qualquer parte, nas tuas tardes perdidas em pensamentos e buscas de ti, e desde que encontraste o teu nome em meus olhos também começas a guardar cada vez mais o meu nome nos teus, e na tua ansiosa solidão me encontras nas músicas que deixo e me desvendas e nos encontras por elas assim, e reafirmas essa certeza absoluta que tens de mim quando me ensinas a cada dia a aprender sempre mais da tua própria loucura, e da ousadia arrebatadora e angelical do teu amor quando me ensinas a cada dia que todo amor é indefinível e livre inclusive de qualquer passado nosso, embora não desejemos promessas nem qualquer futuro ou falsas ilusões de intensidade e eternidade que já não cabem nos nossos corações parcialmente destruídos.
Então não esperamos já nada além de deixar que escorra de dentro de nós tudo isso, e embora diante da tua imensidão que adivinho completamente e tão clara me parece, que a um mínimo consentimento percorreria todos os caminhos do teu corpo efervescente, como imaginas pelos meus olhos tudo que seríamos capazes, e assim me ensinarias a fechar-me sem saída nos teus labirintos em tudo que me ensinas a enxergar como tantas outras coisas que posso te falar de tudo que descobri, em tantos lugares que andei.
E em tudo isso é que penso na verdade quando derramo sobre ti palavras do gosto amargo do amor que sobrou do passado entre todas as amarguras que trago que em intensidade carregam mais que uma vida inteira, e tudo isso é que também pensas e queres quando derramas sobre mim em palavras os teus cansaços, as tuas incertezas e o peso de ser exatamente quem você é, que recai sobre ti com absoluta beleza que me entregas sem rodeios em um carinho infinito que transpassa pela rede e te deixas assim em minhas mãos, absolutamente transparente, absolutamente destemido, completamente decidido a essa loucura que nasce da tua luz, da qual me pergunto se não sou apenas outro inseto em volta, mas seja de qualquer forma, seja o que for que nos espere, admito apenas que amo, sem saber de que forma, sem querer entender ou explicar. E assim será, reconheço enfim, confundir pra mim é sempre fácil. Acontece que pra você também, pois não aprendemos nada sobre amor por departamentos.
E desde então é impossível recuar para não ir ao fim e fundo disso que nunca vivi antes e talvez tenha inventado apenas para me distrair nesses dias onde aparentemente nada acontece.
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Você me adivinha estranhamente como se eu fosse toda escrita em um alfabeto tão seu. E diante dos seus olhos estranhamente vivos me vejo completamente transparente e vulnerável, nessa estranha certeza absoluta que temos um do outro e que nem mesmo nossas palavras e ações conseguem confundir.
E a verdade é que vou me inebriando disso tudo que é você, a verdade é que esse perigo que é você vem dominando sem achar resistência um a um dos meus pensamentos, embora eu evite a qualquer custo que chegue o dia em que nenhum deles mais me pertença. Então fugimos, recuamos, calamos, pela ansiedade de tanto a dizer ainda quando as palavras acabam, na esperança que nossos silêncios encharcados um do outro falem o que não conseguimos.
Calamos mas são nossos silêncios que dizem tanto e nos denunciam ainda mais do que o seria capaz qualquer palavra, e cada frase incompleta ou fugitiva ainda mais me trai e me arrasta pela rede a tão distante para me dispor inteiramente em suas mãos e esperar que me leves a qualquer parte ou em parte alguma.
E me vejo organizando as frases que tenho pra te dizer a espera de que me encontres nesses sutis enigmas e já admito ser impossível recuar, quanto mais tento ao perceber quão absurda é a ousadia do teu veneno, sou impulsionada a te buscar nas páginas do que me disseste, nas palavras que abandonas displicente, nas músicas tão suas em busca de que uma me mostre aquilo que você sutilmente adivinha , sem suportar a idéia de que possa crescer algo assim tão sorrateiro, embora vejamos completamente inevitável que tantos caminhos tortos possam terminar apenas um diante do outro, tão claramente que não foi possível perceber antes.
Mas diante desse doce imenso mar de carinho que não consigo conter dentro de mim e que começa a escorrer dos teus olhos quando me levas a qualquer parte, nas tuas tardes perdidas em pensamentos e buscas de ti, e desde que encontraste o teu nome em meus olhos também começas a guardar cada vez mais o meu nome nos teus, e na tua ansiosa solidão me encontras nas músicas que deixo e me desvendas e nos encontras por elas assim, e reafirmas essa certeza absoluta que tens de mim quando me ensinas a cada dia a aprender sempre mais da tua própria loucura, e da ousadia arrebatadora e angelical do teu amor quando me ensinas a cada dia que todo amor é indefinível e livre inclusive de qualquer passado nosso, embora não desejemos promessas nem qualquer futuro ou falsas ilusões de intensidade e eternidade que já não cabem nos nossos corações parcialmente destruídos.
Então não esperamos já nada além de deixar que escorra de dentro de nós tudo isso, e embora diante da tua imensidão que adivinho completamente e tão clara me parece, que a um mínimo consentimento percorreria todos os caminhos do teu corpo efervescente, como imaginas pelos meus olhos tudo que seríamos capazes, e assim me ensinarias a fechar-me sem saída nos teus labirintos em tudo que me ensinas a enxergar como tantas outras coisas que posso te falar de tudo que descobri, em tantos lugares que andei.
E em tudo isso é que penso na verdade quando derramo sobre ti palavras do gosto amargo do amor que sobrou do passado entre todas as amarguras que trago que em intensidade carregam mais que uma vida inteira, e tudo isso é que também pensas e queres quando derramas sobre mim em palavras os teus cansaços, as tuas incertezas e o peso de ser exatamente quem você é, que recai sobre ti com absoluta beleza que me entregas sem rodeios em um carinho infinito que transpassa pela rede e te deixas assim em minhas mãos, absolutamente transparente, absolutamente destemido, completamente decidido a essa loucura que nasce da tua luz, da qual me pergunto se não sou apenas outro inseto em volta, mas seja de qualquer forma, seja o que for que nos espere, admito apenas que amo, sem saber de que forma, sem querer entender ou explicar. E assim será, reconheço enfim, confundir pra mim é sempre fácil. Acontece que pra você também, pois não aprendemos nada sobre amor por departamentos.
E desde então é impossível recuar para não ir ao fim e fundo disso que nunca vivi antes e talvez tenha inventado apenas para me distrair nesses dias onde aparentemente nada acontece.
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segunda-feira, 10 de janeiro de 2011
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Cheiro de chuva no vento pela janela. Cheiro de chuva com sol das sete, com café e pão assado. Cheiros que só fazem sentido aqui. Amores que só fazem sentido aqui. E o meu tempo vai-se esgotando. Compensando a mais imensa solidão com euforia. E de tudo que sinto obrigo-me a ir para o lado completamente oposto. Recusando-me a sofrer, magoando-me ainda assim, por admitir que nunca serão alegrias todas as minhas euforias.
Por admitir com alguma lágrima no escuro da noite, que o que eu quero é tão pouco, muito menos do que todo o trabalho de sair à noite, perder tempo no espelho, gastar-me em conversas vãs, eu só queria alguém do meu lado nessa noite escura. Alguém que não esteja carregado de perfume, que não vai reparar se não uso maquiagem. Que não vai estranhar se eu dormir encolhida e ter paciência se eu precisar dormir abraçada. Que vai olhar o meu cabelo de manhã e continuar achando bonito. Não, não é ausência de sentimentos. É o absurdo excesso de todos eles, protejo-me.
Sem qualquer fé, sem qualquer esperança, sem forças de recomeçar ou insistir em qualquer coisa. Esse vazio ao qual vou dando espaço, começo a perceber que não é muito melhor do que deixar-me sofrer. A correnteza que escolha por mim. Ainda não aprendi a amar de uma forma que não inicie apenas por retribuir. Assim como uma rápida chuva fina pode me trazer tanta tristeza, simples demonstrações de afeto me conquistam. definitivamente.
"e quando chega essa hora da noite eu me desencanto. Viro outra vez aquilo que sou todo dia, fechada sozinha perdida no meu quarto, longe da roda e de tudo: uma criança assustada"
(Caio Fernando Abreu)
"Nunca fui como todos
Nunca tive muitos amigos
Nunca fui favorita
Nunca fui o que meus pais queriam
Nunca tive alguém que amasse
Mas tive somente a mim
A minha absoluta verdade
Meu verdadeiro pensamento
O meu conforto nas horas de sofrimento
não vivo sozinha porque gosto
e sim porque aprendi a ser só..."
(Florbela Espanca)
.
Cheiro de chuva no vento pela janela. Cheiro de chuva com sol das sete, com café e pão assado. Cheiros que só fazem sentido aqui. Amores que só fazem sentido aqui. E o meu tempo vai-se esgotando. Compensando a mais imensa solidão com euforia. E de tudo que sinto obrigo-me a ir para o lado completamente oposto. Recusando-me a sofrer, magoando-me ainda assim, por admitir que nunca serão alegrias todas as minhas euforias.
Por admitir com alguma lágrima no escuro da noite, que o que eu quero é tão pouco, muito menos do que todo o trabalho de sair à noite, perder tempo no espelho, gastar-me em conversas vãs, eu só queria alguém do meu lado nessa noite escura. Alguém que não esteja carregado de perfume, que não vai reparar se não uso maquiagem. Que não vai estranhar se eu dormir encolhida e ter paciência se eu precisar dormir abraçada. Que vai olhar o meu cabelo de manhã e continuar achando bonito. Não, não é ausência de sentimentos. É o absurdo excesso de todos eles, protejo-me.
Sem qualquer fé, sem qualquer esperança, sem forças de recomeçar ou insistir em qualquer coisa. Esse vazio ao qual vou dando espaço, começo a perceber que não é muito melhor do que deixar-me sofrer. A correnteza que escolha por mim. Ainda não aprendi a amar de uma forma que não inicie apenas por retribuir. Assim como uma rápida chuva fina pode me trazer tanta tristeza, simples demonstrações de afeto me conquistam. definitivamente.
"e quando chega essa hora da noite eu me desencanto. Viro outra vez aquilo que sou todo dia, fechada sozinha perdida no meu quarto, longe da roda e de tudo: uma criança assustada"
(Caio Fernando Abreu)
"Nunca fui como todos
Nunca tive muitos amigos
Nunca fui favorita
Nunca fui o que meus pais queriam
Nunca tive alguém que amasse
Mas tive somente a mim
A minha absoluta verdade
Meu verdadeiro pensamento
O meu conforto nas horas de sofrimento
não vivo sozinha porque gosto
e sim porque aprendi a ser só..."
(Florbela Espanca)
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quinta-feira, 2 de dezembro de 2010
Aventure-se. Liberte-se. Voe.
.
Por maior que seja a minha necessidade de amar, não o posso fazer sozinha. Foi preciso doer para que eu enxergasse. Desistindo fatalmente de ser 'melhor' a cada dia. Agora tanto faz, se sou primavera ou inverno. Tanto faz se a minha paz é teu inferno.
A vida decide, invade, arrasta, e quem sou eu diante da força da natureza, acima de todas as nossas escolhas. E nisso tudo, aprender a sentir minhas dores, ao invés de tentar sufocá-las. Aprender a chorar. A sentir saudade de tudo que faz parte de mim. É, eu me permito, sim. Descobrir que o amor deve ser um mar, sem limites, profundo, com ondas que vão e vem. Chega de pântanos. Se o amor agora pra mim é comédia, já me basta de tragédias. A explicação é simples. A descoberta é tardia. Achar alguém que vibre numa mesma sintonia.
Minha sentença é amar. O meu destino é sentir. Onde for preciso ir. Eu não temo nada quando venha do amor, seja ele qual for, de quem for, de quantas formas for. Eu não tenho medo de cair, se as minhas asas são imensas. Eu não tenho medo de ousar, se a minha alma me arrasta. Se o meu sangue implora. Tudo aquilo que me move nunca será errado. Ou proibido. Ou condenado. Apenas eu. Cadente, mas estrela.
Quem poderá subjugar a beleza do amor original? Quem o pode aprisionar? E que ninguém mais cegue os que vêem a mais. E que ninguém mais acorrente os que amam demais, os que sabem amar.
Nunca soube aprender a separar céu e inferno, fazer da vida um clube de campo. Separar uns aqui, outros ali, dividir pessoas pelo que negam de si mesmas. O mais difícil nesse mundo é aceitar que por trás de tudo, há apenas pessoas. Incapazes de aceitar que uma certa desordem é a ordem sagrada do mundo. Também não posso aceitar um Deus que seja menos do que tudo que se sente. Se ele não precisa de palavras, definição ou paredes.
E eu podia tentar dar só o melhor de mim, tentar merecer ser amada, mas já não me importa nada disso. Eu podia mostrar só o que eu tenho de mais bonito, mas acontece que os poetas são ambíguos. Instáveis, intensos, extremos, supremos, (promíscuos?): são anjos, são almas livres!
Eu queria escrever sempre num mesmo estilo. Poder dizer: sou contista. Poetiza. Prosa, verso, balela, qualquer coisa. Mas você já pode ver, coisa difícil é me enquadrar em qualquer definição, além da violência de uma solidão. E se mesmo assim você ainda não desistiu, te dou tudo de mim, então: organize. Impossível pra mim é julgar, separar, definir: faça-o você. Se puder, tente entender, porque eu só consigo sentir. Só não me peça pra fingir. Pra recuar se te assusto. Não posso te dizer só o que você quer ouvir. Ouse. Isso é amar.
Amar o torto, o vago, o incerto. O que há de ruim, sim. Ria-se dos meus defeitos. Desfrute dos meus vícios. Alguém real. Que tem sede de alma, e de pele também. Amar alguém que não cabe no seu ideal, mas pode ultrapassá-lo.
Aventure-se. Arrisque-se. Liberte-se. Voe, e caia sobre mim.
Liberdade: é disso que eu sou feita. O meu limite é não ter medida. Indefinições de espaço, laço, intensidade, tempo e dimensão: alforria da razão.
******************************************************************
Em êxtase.
O amor a toma nos braços e já não faz sentido qualquer juízo. E de todas as coisas que valessem em conta já pequenas seriam quando ele lhe disse : vem comigo.
Pediu que o tempo parasse como uma forma de não assumir tudo que deixava para trás. E, sem quase palavras na mente e algumas promessas nas mãos desafia tudo que tem por algo que nenhuma certeza lhe oferece . Quanto tempo estará ‘parada’ sua vida , sua solidão por tanto tempo cultivada e suas mais profundas meditações? Seus livros empoeiram nas estantes, seus cds românticos antes enojavam, fazem todo o sentido. Onde sua melancolia, junto com o seu juízo,razão, orgulho, dignidade e pudor? Sua tristeza por uma ironia despreocupada, despretensa. Seu ar sério na alegria que se lhe toma muitas vezes a pretender sufocar-lhe ou saltar aos olhos. E, ao demais, nada mais. Não pensar. E amar, amar, amar.
Oh! Perdoe-se o egocentrismo do amor. É que assim deitado à toa em seu colo lhe olha e é o que de mais belo existe e nenhum sentir comum poderá alcançar o elixir dessa fugaz felicidade. Esse mundo fechado a dois trincos será sempre desconhecido para mais de dois pares de olhos. É o preço. Mas se aprender calando e sorrindo o mistério que pede a vida para seus segredos é dádiva de cada, no retorno, um dia a si e aos seus, só há de perguntar: que ainda sou? E seguir sem esquecer do relance para trás donde lhe sorri o Amor dizendo: não lhes conte o que só se pode viver. Nunca explicar.
Se o futuro aos dois não abraçar, consta que tiveram na intensidade a certeza de todos os ‘pra sempres’ não ditos, e os suores de seus abraços quando ninguém mais se pertencia, para sempre – e agora, o que de mais vale - os manterá em êxtase.
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Por maior que seja a minha necessidade de amar, não o posso fazer sozinha. Foi preciso doer para que eu enxergasse. Desistindo fatalmente de ser 'melhor' a cada dia. Agora tanto faz, se sou primavera ou inverno. Tanto faz se a minha paz é teu inferno.
A vida decide, invade, arrasta, e quem sou eu diante da força da natureza, acima de todas as nossas escolhas. E nisso tudo, aprender a sentir minhas dores, ao invés de tentar sufocá-las. Aprender a chorar. A sentir saudade de tudo que faz parte de mim. É, eu me permito, sim. Descobrir que o amor deve ser um mar, sem limites, profundo, com ondas que vão e vem. Chega de pântanos. Se o amor agora pra mim é comédia, já me basta de tragédias. A explicação é simples. A descoberta é tardia. Achar alguém que vibre numa mesma sintonia.
Minha sentença é amar. O meu destino é sentir. Onde for preciso ir. Eu não temo nada quando venha do amor, seja ele qual for, de quem for, de quantas formas for. Eu não tenho medo de cair, se as minhas asas são imensas. Eu não tenho medo de ousar, se a minha alma me arrasta. Se o meu sangue implora. Tudo aquilo que me move nunca será errado. Ou proibido. Ou condenado. Apenas eu. Cadente, mas estrela.
Quem poderá subjugar a beleza do amor original? Quem o pode aprisionar? E que ninguém mais cegue os que vêem a mais. E que ninguém mais acorrente os que amam demais, os que sabem amar.
Nunca soube aprender a separar céu e inferno, fazer da vida um clube de campo. Separar uns aqui, outros ali, dividir pessoas pelo que negam de si mesmas. O mais difícil nesse mundo é aceitar que por trás de tudo, há apenas pessoas. Incapazes de aceitar que uma certa desordem é a ordem sagrada do mundo. Também não posso aceitar um Deus que seja menos do que tudo que se sente. Se ele não precisa de palavras, definição ou paredes.
E eu podia tentar dar só o melhor de mim, tentar merecer ser amada, mas já não me importa nada disso. Eu podia mostrar só o que eu tenho de mais bonito, mas acontece que os poetas são ambíguos. Instáveis, intensos, extremos, supremos, (promíscuos?): são anjos, são almas livres!
Eu queria escrever sempre num mesmo estilo. Poder dizer: sou contista. Poetiza. Prosa, verso, balela, qualquer coisa. Mas você já pode ver, coisa difícil é me enquadrar em qualquer definição, além da violência de uma solidão. E se mesmo assim você ainda não desistiu, te dou tudo de mim, então: organize. Impossível pra mim é julgar, separar, definir: faça-o você. Se puder, tente entender, porque eu só consigo sentir. Só não me peça pra fingir. Pra recuar se te assusto. Não posso te dizer só o que você quer ouvir. Ouse. Isso é amar.
Amar o torto, o vago, o incerto. O que há de ruim, sim. Ria-se dos meus defeitos. Desfrute dos meus vícios. Alguém real. Que tem sede de alma, e de pele também. Amar alguém que não cabe no seu ideal, mas pode ultrapassá-lo.
Aventure-se. Arrisque-se. Liberte-se. Voe, e caia sobre mim.
Liberdade: é disso que eu sou feita. O meu limite é não ter medida. Indefinições de espaço, laço, intensidade, tempo e dimensão: alforria da razão.
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Em êxtase.
O amor a toma nos braços e já não faz sentido qualquer juízo. E de todas as coisas que valessem em conta já pequenas seriam quando ele lhe disse : vem comigo.
Pediu que o tempo parasse como uma forma de não assumir tudo que deixava para trás. E, sem quase palavras na mente e algumas promessas nas mãos desafia tudo que tem por algo que nenhuma certeza lhe oferece . Quanto tempo estará ‘parada’ sua vida , sua solidão por tanto tempo cultivada e suas mais profundas meditações? Seus livros empoeiram nas estantes, seus cds românticos antes enojavam, fazem todo o sentido. Onde sua melancolia, junto com o seu juízo,razão, orgulho, dignidade e pudor? Sua tristeza por uma ironia despreocupada, despretensa. Seu ar sério na alegria que se lhe toma muitas vezes a pretender sufocar-lhe ou saltar aos olhos. E, ao demais, nada mais. Não pensar. E amar, amar, amar.
Oh! Perdoe-se o egocentrismo do amor. É que assim deitado à toa em seu colo lhe olha e é o que de mais belo existe e nenhum sentir comum poderá alcançar o elixir dessa fugaz felicidade. Esse mundo fechado a dois trincos será sempre desconhecido para mais de dois pares de olhos. É o preço. Mas se aprender calando e sorrindo o mistério que pede a vida para seus segredos é dádiva de cada, no retorno, um dia a si e aos seus, só há de perguntar: que ainda sou? E seguir sem esquecer do relance para trás donde lhe sorri o Amor dizendo: não lhes conte o que só se pode viver. Nunca explicar.
Se o futuro aos dois não abraçar, consta que tiveram na intensidade a certeza de todos os ‘pra sempres’ não ditos, e os suores de seus abraços quando ninguém mais se pertencia, para sempre – e agora, o que de mais vale - os manterá em êxtase.
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domingo, 21 de novembro de 2010
Ocaso
Tenho a alma triste. A tarde insiste
Lá fora. Chora
A dor da vida
Caída
Persiste.
Aflora.
Ser só. Ser meu sol. Ser só meu.
Chuva sem alarde
Fria e fria a tarde
Só e somente minha
Sozinha
Dentro do mundo
Fundo
Poço. Largo. Paço calado.
Passo mudo
Surdo e alado.
A alma preservo
Intacta.
(estático sonho. desejo)
Intocada.
Estocada. Estancada: Protejo.
Reservo. Não revelo.
E espero.
Solidão.
Infinitamente
Solidão.
Anoiteço. Emudeço.
Calo. Calo. Calo.
Desfaleço
No ocaso da alma
A ciclotimia abrupta.
Ininterrupta.
Lá fora. Chora
A dor da vida
Caída
Persiste.
Aflora.
Ser só. Ser meu sol. Ser só meu.
Chuva sem alarde
Fria e fria a tarde
Só e somente minha
Sozinha
Dentro do mundo
Fundo
Poço. Largo. Paço calado.
Passo mudo
Surdo e alado.
A alma preservo
Intacta.
(estático sonho. desejo)
Intocada.
Estocada. Estancada: Protejo.
Reservo. Não revelo.
E espero.
Solidão.
Infinitamente
Solidão.
Anoiteço. Emudeço.
Calo. Calo. Calo.
Desfaleço
No ocaso da alma
A ciclotimia abrupta.
Ininterrupta.
sexta-feira, 12 de novembro de 2010
Essa é a minha vida:
Estrada florida de caminhos tortuosos
Sem fim, na direção do poente.
Essa é minha alegria:
Vento sempre passando
Que vai-se às vezes de repente.
Essa é minha verdade:
Atalho escondido, sombrio
Tão distante da estrada.
Esse é meu sorriso:
Albergue esquecido
Que tornou-se abrigo de saudade abandonada.
Esse é o meu olhar:
Lago legado ao caminho
Que ninguém ousou mergulhar.
Essa é minha alma:
Automóvel inconstante
Veloz e sempre adiante
Sem saber onde parar.
segunda-feira, 8 de novembro de 2010
Por Toda Parte
(egon schiele)
Nicole enxugou os cabelos curtos numa toalha molhada. Passou os dedos pelos olhos arrancando o resto de maquiagem que se misturava com uma ou duas lágrimas. ‘Uma ou duas, que diferença faz. Não na quantidade, mas na cor’. Lágrimas negras, pensou. Recolhia as roupas do chão, enquanto talvez encontrasse também alguns cacos daquilo que um dia foi sua alma. Vestiu-se. Saiu. Uns dezoito anos, uns dezoito dias, que diferença faria... Podia-se ver atravessando o parque, sem rumo, uma garota pequena e discretamente sem graça. Não, não se via. Porque sempre fora imperceptível. ‘imperceptiva’, dizia, de hoje em diante. Existiria essa palavra?...'Mas que me importa se essa palavra não existe, somos já duas então.’
Havia cheiro de pastéis e fumaça, e um cheiro de cigarro e de outras pessoas em seu corpo. Levava constantemente outros cheiros além do seu. Saía agora do corpo constantemente, e assim acabou saindo talvez da alma. Que grande bobagem -falava consigo, pelas ruas, coisas desconexas e profundamente concisas, sem se importar que alguém se admirasse de uma suposta loucura. Subiu no ônibus, ia em pé, deixando-se levar por aquele nervoso balanço . Deixava-se levar sempre, faz tempo. Desde que desistira dessa sede doentia de amor, desde que todo esse mar de sentimento contido adoecera, transformando-se em negra compulsão, quando descobrira que só pôde ser amada depois que todo aquele amor contido no cérebro descera para os quadris.
Era noite, agora.’É noite sempre’. Subira no ônibus errado e descera em qualquer lugar. Pensava, falava:’ Em qualquer lugar, pra qualquer lugar, por toda parte. não importa.’ Jamais encontrava onde fosse, algo além de si. As pessoas não eram senão o que podia ver de si nelas. As coisas só eram se as olhasse, ‘e se não olho, não existe. Coisas e pessoas não são muito diferentes’. Jamais achava algo além de si, tanto mais longe fosse, onde quer que pudesse ir. Porque estava 'em qualquer lugar, por toda parte'. Via-se agora naqueles muros pichados, estava no cheiro de urina dos becos, estava por dentro do gosto de cachaça da mesa do bar improvisado e sujo. Estava por baixo do esgoto, estava nas janelas, e em tudo que acontecia dentro delas. Estava na buzina dos carros e nos xingamentos de seus donos e nos seus donos irritados. Estava no alto do prédio cinza e na queda de quem já pulou, e na mancha pálida de sangue que ficou. Estava agora empurrando o carrinho de churros junto com aquele homem que voltava pra casa assobiando. Estava no insuportável cheiro do suor que escorria daquele corpo meio gordo e ensebado, daquele homem que podia ver como homem ou como mais um dia de trabalho. Estava no homem de cabelos vazios que diziam que ele já vivera muitos anos, e no seu sorriso medíocre que só usava quando necessário esconder-se. Estava na mulher de cabelos e roupas longas, com um livro na mão, que entrava numa certa igreja enquanto lhe destinava um olhar de desprezo.Estava no casal de namorados no muro mal iluminado, e no cheiro de saliva que espalhavam pelo corpo um do outro. Estava em toda parte, menos do lado de dentro.
E caminhava e a noite crescia e estava na noite, completamente, e a noite estivera sempre dentro dela. Escura, profunda, impenetrável. Imensa. Mas quem quer saber de imensidão. Pessoas começavam a chegar e a conversar nas esquinas, usavam roupas extravagantes e saltos muito altos. Homens, mulheres: pessoas, não importa. Estava nelas também. Amava-as todas. Estava em todos aqueles cabelos alterados para serem vistos, em todas aquelas maquiagens e tudo que brilhava porque as pessoas não desistem, não como ela. Não desistem e pra isso se transformam, se enfeitam: convidam. Aos poucos carros paravam e alguém subia e as horas passavam. ‘Quantas horas não importa. Não as quantidades, mas as cores.’ Sentou na calçada de algum prédio, alguém voltava da praia com um cachorro. Sentou para observar. Observava sempre, sem se preocupar com o que deveria concluir. Falava baixinho. ‘Não existem conclusões, tudo isso é farsa. Tudo isso é a saída para fugir da loucura, mas se todos ousássemos afrontar a loucura, aí sim, quem sabe, tudo seria real. Inconclusivo.Mutável. E aí todos iriam admitir que a beleza é torta, é abstrata, é incerta, enquanto procuramos fazer dela justamente o contrário.’
Aos poucos a calçada esvaziava-se. O burburinho das vozes e risos tornava-se menor e o da noite também. Ainda pôde ver-se também dentro da última pessoa que subiu no carro que parou, e dentro da música que tocava dentro do carro que cheirava algo como poeira.
Mas não era o último carro. Outro ainda, surgiu. Baixou os vidros escuros. Haviam dois olhos. Alguém acenou. Estava naquele aceno: teria que buscar-se, então. Buscava-se sempre, nas coisas onde estava, para trazer-se de volta. E as coisas às vezes eram pessoas. Todos os dias, ali, ou em qualquer lugar, ‘Em qualquer lugar, pra qualquer lugar, por toda parte’.Buscar-se. 'Em uma pessoa ou em todas, que diferença faz. Não na quantidade, mas na cor.'Importam as cores a reunir de novo.
Entrou no último carro, e estava em todos os gostos e cheiros que sentiria, e que traria de volta, ainda outra vez. Como fazia há dezoito anos, uma mulher madura e profundamente destruída. Como fazia há dezoito dias, uma menina e assutada que colecionava cores.
sexta-feira, 29 de outubro de 2010
Eu sou exatamente aquilo que me incomoda. Me apresento a cada dia, muito bem, é isso aí: é que eu já tinha esquecido de mim. Eu sou exatamente aquilo que me dói inteira. Descubro uma verdade em cada dia, e se preciso destruo e refaço todas elas dia após dia. E essa grande procura de mim mesma já é na verdade o meu grande encontro.
Apenas nunca fui frágil, e é difícil aceitar a própria violência.
Eu sou todas essas incertezas, todas essas sedes e toda essa que não faz idéia de onde se encaixam certo e errado, que tentou silenciar-se, não ser, não sentir tanto. E procurei fugir de mim, escondendo-me em alguém. Curiosamente, isso me fazia bem. Mas descubro que não é assim, e que não tenho mais medo de mim, tão pouco do julgamento dos outros. Tentei não me perder, e foi exatamente aí que me perdi de mim. Tenho voltado, cautelosamente piso no terreno incerto de mim mesma, mas é esse que é meu, é isso que eu sou, não posso mais fugir. Desistir de mim nunca será o caminho quando não há no mundo quem saiba o caminho qual é. Tenho o cansaço regresso de caminhos extremos. Também a liberdade pode ser perigosa. Ser escrava do certo aprisiona mas ser escrava do erro machuca demais.
Insistem,por dentro, esses olhos que não descansam nunca.
************************************
DIAS CLAROS
Os dias vão passando entre coincidências sutis e tudo pra resolver que resolvo deixando pra amanhã. Casas de madeira sobre o rio e sob um sol que resiste ao passar das horas, circundam meninas de cabelos muito longos e lisos, meninos magros de olhos pequenos fazem alvoroço e como o sol, também persistem lá fora. Procuro pássaros mas só há aves de rapina, e alguns bem-te-vis perdidos. O calor é forte, seca rápido a chuva que insiste em cair por dentro. Nem preciso dizer que isso tudo é a cara do Norte que conheço há pouco, e deixarei em breve.
A vida frágil, curta e infinita. Pessoas infinitas ameaçadas pela fragilidade da carne. A fragilidade da vida contrasta com a força dos olhos onde se leva a alma. Alma...Um dia, inda esbarro numa. Dessas que a gente não duvida, só em olhar. Dessas que fazem coisas que não conseguem trair a certeza que temos de quem exatamente ela é.
Lembro... lembro alguém que agora apenas dói, infinitamente. Restou uma dor, mais nada. Um dói estranho. Um dói quando falo, um dói quando ouço. Além disso supero as lembranças que só voltam a muito custo, mas voltam, e doem. Mas há outros ímãs e aos poucos sou atraída pela própria naturalidade da alma dos olhos.
E outra vez a falta de ar me visita dia pós dia, e preciso dos remédios para trazer o fôlego que me foge, com esforço que faço para respirar, e para existir, enquanto nos outros isso é algo natural. Mas não comigo, mas não assim. Não natural como o meu esforço por não ver a dor que encontro em tudo, para resistir à beleza arrebatadora de sorrisos marcados, de olhares que trazem verdades encontradas em caminhos obtusos. E quanto mais sei que deveria caminhar em linha reta no terreno plano, mais involuntariamente caminho para o precipício, pois não há nada mais triste do que o caminho em linha reta e pés presos ao chão, antes saltar do despenhadeiro com os braços abertos, embora eu já saiba muito bem que o destino é sempre o chão.
Apenas nunca fui frágil, e é difícil aceitar a própria violência.
Eu sou todas essas incertezas, todas essas sedes e toda essa que não faz idéia de onde se encaixam certo e errado, que tentou silenciar-se, não ser, não sentir tanto. E procurei fugir de mim, escondendo-me em alguém. Curiosamente, isso me fazia bem. Mas descubro que não é assim, e que não tenho mais medo de mim, tão pouco do julgamento dos outros. Tentei não me perder, e foi exatamente aí que me perdi de mim. Tenho voltado, cautelosamente piso no terreno incerto de mim mesma, mas é esse que é meu, é isso que eu sou, não posso mais fugir. Desistir de mim nunca será o caminho quando não há no mundo quem saiba o caminho qual é. Tenho o cansaço regresso de caminhos extremos. Também a liberdade pode ser perigosa. Ser escrava do certo aprisiona mas ser escrava do erro machuca demais.
Insistem,por dentro, esses olhos que não descansam nunca.
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DIAS CLAROS
Os dias vão passando entre coincidências sutis e tudo pra resolver que resolvo deixando pra amanhã. Casas de madeira sobre o rio e sob um sol que resiste ao passar das horas, circundam meninas de cabelos muito longos e lisos, meninos magros de olhos pequenos fazem alvoroço e como o sol, também persistem lá fora. Procuro pássaros mas só há aves de rapina, e alguns bem-te-vis perdidos. O calor é forte, seca rápido a chuva que insiste em cair por dentro. Nem preciso dizer que isso tudo é a cara do Norte que conheço há pouco, e deixarei em breve.
A vida frágil, curta e infinita. Pessoas infinitas ameaçadas pela fragilidade da carne. A fragilidade da vida contrasta com a força dos olhos onde se leva a alma. Alma...Um dia, inda esbarro numa. Dessas que a gente não duvida, só em olhar. Dessas que fazem coisas que não conseguem trair a certeza que temos de quem exatamente ela é.
Lembro... lembro alguém que agora apenas dói, infinitamente. Restou uma dor, mais nada. Um dói estranho. Um dói quando falo, um dói quando ouço. Além disso supero as lembranças que só voltam a muito custo, mas voltam, e doem. Mas há outros ímãs e aos poucos sou atraída pela própria naturalidade da alma dos olhos.
E outra vez a falta de ar me visita dia pós dia, e preciso dos remédios para trazer o fôlego que me foge, com esforço que faço para respirar, e para existir, enquanto nos outros isso é algo natural. Mas não comigo, mas não assim. Não natural como o meu esforço por não ver a dor que encontro em tudo, para resistir à beleza arrebatadora de sorrisos marcados, de olhares que trazem verdades encontradas em caminhos obtusos. E quanto mais sei que deveria caminhar em linha reta no terreno plano, mais involuntariamente caminho para o precipício, pois não há nada mais triste do que o caminho em linha reta e pés presos ao chão, antes saltar do despenhadeiro com os braços abertos, embora eu já saiba muito bem que o destino é sempre o chão.
domingo, 24 de outubro de 2010
A mudança, o sentido. O sentido da mudança. A mudança de sentido.
.
(alguns pensamentos soltos)
A variar nas minhas crises de inconstância. Agora, mesmo. Porque a mudança é a lei da minha vida, quem sabe a única constância além do meu nome em todos esses anos. Vou aqui puxando pela memória...Lembro da minha infância, da repreensão que levei da professora por não responder à pergunta: “qual sua cor preferida”. Na minha doentia timidez, todas as cores passaram pelo meu rosto enquanto o suor gelava minhas mãos, mas não pude escolher uma só. Já adolescente, ouvia as críticas da minha mãe a dizer que nunca escrevi com a mesma caligrafia por mais de dois dias, e que essa mania tosca não melhorou conforme cresci. Falta de personalidade – dizia ela. Pode ser. Ou o excesso: várias. Dificuldade em eleger uma só. Coisa é que nunca perdi meu tempo com psiquiatras mas taí, quem sabe deva começar a pensar.
Alguém outra vez me disse que pareço uma fugitiva. Como um camaleão, até mesmo minha cor pode ser várias, só querer, das mais claras às mais escuras, coisa dessa herança genética completamente brasileira. Uma fugitiva...pode ser, pode ser...Tava revendo hoje umas fotos, notando a minha impossibilidade de permanecer com o mesmo corte, cor, cabelo por mais de algum tempo que costumam contar em meses, não mais que alguns poucos. Meses, anos, anos que não voltam, anos que usei para amar, coisa que inventei pra me passar o tempo desde a infância.
Ah,o amor, a infância, o amor na infância...Ele é perfeito. Ressurge e volto a entender como fui capaz de alimentar tanto tempo o amor mais platônico e inimaginável de todos. É perfeito, enfim. Um pouco imaturo talvez. Não,não é. Eu é que sou velha demais, sempre fui, e prefiro continuar bem longe. Além do mais nunca fui boa nessa coisa de marketing pessoal, sincera preguiça pra minha propaganda, não sou boa nisso,veja só. O meu sorriso nem sequer é um bom cartão de visita. Nem ao menos gosto de perfumes, prefiro os tipos de cheiros que só é possível sentir de perto, e quanto mais perto mais se sente, mais se embriaga. Tanto mais perto, mais se conhece, nada de merchans, então.
Sigo, mudança que sou. E, procurando o sentido. O sentido, afinal, todo mundo precisa de um. O sentido que por ele mudo e mudei sempre, e mudarei sempre, a cada segundo de cada minuto, o procuro. Já não quero o ‘verdadeiro sentido’, só quero achar algum que dê certo. Eu até tinha um mas o fato é que não por minha escolha, faliu. Explico: temendo a obscuridade dos abismos da minha mente vagante e das minhas ações juvenis ingênuas, passionais e por isso mesmo desenfreadas, achei o sentido. No lar, na casa, na família feliz, rumo certo, igreja no domingo, roupa passada. E tudo fazia sentido quando a casa cheirava a limpeza e a rua já estava em silêncio, cada coisinha no seu lugar, coisa boba assim e pequena capaz de me dar tanta estabilidade que nunca tive, bem assim como fosse possível arrumar a cabeça ao arrumar gavetas.
Mas como disse o Caetano, tudo é muito mais. Agora sei lá, to meio por aí. Ando cansada de sentir e ansiosa por isso. É que sigo vagando e pensando e todas as contradições acabam por explicar-se umas às outras. E sei que sou velha, Estou velha. O meu rosto tem o peso dos anos que fisicamente ainda não completei. Como se visse todos os caminhos a escolher a partir do destino final. Velha e escrava, escrava da mudança, essa me arrasta como um vento, a ela sou acorrentada e arrastada, meus cabelos tocam o chão, e agora sou toda poeira de estrada e estradas. E tanto sou mudança que tenho dificuldades em manter o sentido do texto, o sentido do início do texto. É, o sentido.
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(alguns pensamentos soltos)
A variar nas minhas crises de inconstância. Agora, mesmo. Porque a mudança é a lei da minha vida, quem sabe a única constância além do meu nome em todos esses anos. Vou aqui puxando pela memória...Lembro da minha infância, da repreensão que levei da professora por não responder à pergunta: “qual sua cor preferida”. Na minha doentia timidez, todas as cores passaram pelo meu rosto enquanto o suor gelava minhas mãos, mas não pude escolher uma só. Já adolescente, ouvia as críticas da minha mãe a dizer que nunca escrevi com a mesma caligrafia por mais de dois dias, e que essa mania tosca não melhorou conforme cresci. Falta de personalidade – dizia ela. Pode ser. Ou o excesso: várias. Dificuldade em eleger uma só. Coisa é que nunca perdi meu tempo com psiquiatras mas taí, quem sabe deva começar a pensar.
Alguém outra vez me disse que pareço uma fugitiva. Como um camaleão, até mesmo minha cor pode ser várias, só querer, das mais claras às mais escuras, coisa dessa herança genética completamente brasileira. Uma fugitiva...pode ser, pode ser...Tava revendo hoje umas fotos, notando a minha impossibilidade de permanecer com o mesmo corte, cor, cabelo por mais de algum tempo que costumam contar em meses, não mais que alguns poucos. Meses, anos, anos que não voltam, anos que usei para amar, coisa que inventei pra me passar o tempo desde a infância.
Ah,o amor, a infância, o amor na infância...Ele é perfeito. Ressurge e volto a entender como fui capaz de alimentar tanto tempo o amor mais platônico e inimaginável de todos. É perfeito, enfim. Um pouco imaturo talvez. Não,não é. Eu é que sou velha demais, sempre fui, e prefiro continuar bem longe. Além do mais nunca fui boa nessa coisa de marketing pessoal, sincera preguiça pra minha propaganda, não sou boa nisso,veja só. O meu sorriso nem sequer é um bom cartão de visita. Nem ao menos gosto de perfumes, prefiro os tipos de cheiros que só é possível sentir de perto, e quanto mais perto mais se sente, mais se embriaga. Tanto mais perto, mais se conhece, nada de merchans, então.
Sigo, mudança que sou. E, procurando o sentido. O sentido, afinal, todo mundo precisa de um. O sentido que por ele mudo e mudei sempre, e mudarei sempre, a cada segundo de cada minuto, o procuro. Já não quero o ‘verdadeiro sentido’, só quero achar algum que dê certo. Eu até tinha um mas o fato é que não por minha escolha, faliu. Explico: temendo a obscuridade dos abismos da minha mente vagante e das minhas ações juvenis ingênuas, passionais e por isso mesmo desenfreadas, achei o sentido. No lar, na casa, na família feliz, rumo certo, igreja no domingo, roupa passada. E tudo fazia sentido quando a casa cheirava a limpeza e a rua já estava em silêncio, cada coisinha no seu lugar, coisa boba assim e pequena capaz de me dar tanta estabilidade que nunca tive, bem assim como fosse possível arrumar a cabeça ao arrumar gavetas.
Mas como disse o Caetano, tudo é muito mais. Agora sei lá, to meio por aí. Ando cansada de sentir e ansiosa por isso. É que sigo vagando e pensando e todas as contradições acabam por explicar-se umas às outras. E sei que sou velha, Estou velha. O meu rosto tem o peso dos anos que fisicamente ainda não completei. Como se visse todos os caminhos a escolher a partir do destino final. Velha e escrava, escrava da mudança, essa me arrasta como um vento, a ela sou acorrentada e arrastada, meus cabelos tocam o chão, e agora sou toda poeira de estrada e estradas. E tanto sou mudança que tenho dificuldades em manter o sentido do texto, o sentido do início do texto. É, o sentido.
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quinta-feira, 21 de outubro de 2010
ausência
(de alguns anos atrás)
Procuro por alguém
Que talvez nunca existirá
Alguém que, sem que eu fale
Possa já me escutar.
Que habite comigo outro mundo
Que em todo instante eu possa querer
E que esteja longe, tão longe deste
Que já desisti de compreender.
Procuro um olhar que me faça sorrir
Que entenda, sem que eu precise dizer
Que sou menos do que imagina
E sou mais do que pode ver.
Que veja somente o que sou
Escura como a noite, clara como o dia
E ao rumo do infinito leve os meus olhos
Decaídos no abismo dessa angústia fria...
Mas, qual! O tempo passa sem esperança
E sinto a cada dia, a cada hora
Que o amor para mim é só lembrança
Pois ele chega, passa e vai embora...
ok, perdoem, eu era só uma adolescente rs...
Procuro por alguém
Que talvez nunca existirá
Alguém que, sem que eu fale
Possa já me escutar.
Que habite comigo outro mundo
Que em todo instante eu possa querer
E que esteja longe, tão longe deste
Que já desisti de compreender.
Procuro um olhar que me faça sorrir
Que entenda, sem que eu precise dizer
Que sou menos do que imagina
E sou mais do que pode ver.
Que veja somente o que sou
Escura como a noite, clara como o dia
E ao rumo do infinito leve os meus olhos
Decaídos no abismo dessa angústia fria...
Mas, qual! O tempo passa sem esperança
E sinto a cada dia, a cada hora
Que o amor para mim é só lembrança
Pois ele chega, passa e vai embora...
ok, perdoem, eu era só uma adolescente rs...
domingo, 17 de outubro de 2010
Sou Silêncio
E mais uma vez sou silêncio. O silêncio que aprendi da lua. O silêncio que entrou em mim a partir da brisa que veio do mar naquela tarde de estio. O silêncio que um dia vi ao caminhar nessa pequena cidade que se funde com a imensa floresta amazônica, silêncio entrecortado pelos pássaros nos galhos mais altos, refletido numa flor do mato esquecida, que me implorava o olhar. O silêncio estupefato de uma manhã azul que se quedava aos pés dos lírios mais alvos enquanto eu os olhava e pensava... Sou silêncio. Sem perceber, silenciam-se as pessoas para reverenciar o dia nublado. E eu o persigo, e me deixo invadir. O silêncio embalsamando meus pensamentos, derramando-se pelos meus olhos, emudecendo minha voz, enfraquecendo a força dos meus gestos: imobilizando-me. Pesando inteiramente sobre meus ombros, porém com o peso que tem os flamboyants escorrendo pelas estacas.
Caminho pelas ruas ao cair da tarde com meu filho, vejo crianças. E como elas, ele é feliz. Tenho a ele e já não me sinto tão só. Mas como resistir, como não sentir a solidão que está em tudo que mais me fascina, pois que tudo que há de mais belo no universo, tanto maior seja, mais denota infinita solidão, mais me embriaga de arrebatador deslumbre. O mar e a lua, as estrelas mais distantes, aquele pântano esquecido cheirando forte a abandono, no caminho da floresta. Imensamente sós, a espera do meu olhar: compreendemo-nos.
E eu que tanto busquei ser mais que uma, sendo menos, sendo apenas metade, a esperar que alguém me completasse... Tolice. Por um momento não podia suportar inteiramente o meu próprio peso, o peso de ser quem sou, e quis ser só metade. Mas já não há aquarelas. Do meu lado outra vez o cheiro de solidão. Esta, que sempre foi verdadeiramente minha companheira. E a lua nunca duvidou conhecer inteiramente a minha essência, ainda quando eu me perdesse. No litoral, o vento sopra: o meu lugar. E lá, o silêncio rugidio do mar continua a falar sobre mim: turbulento, inconstante, solitário, permanente.
Perdi a utopia do amor
No quintal da casa de sonhos
As nuvens cinzas enfim chegam
Com o chamado da minha alma
Cansada.
Avesso
Eu vivo em um dia que passou
Quero ainda o que neste senti
Não sonho: lembro. E onde vou
Recuo, sabendo que devo seguir.
Das águas do rio me banham as passadas
Sigo nelas na balsa que afundou
E sinto a minha vista embalsamada
E minha pele o tempo já marcou.
Eu quero tudo que foi
Que nunca foi, que não é mais.
Queima-me o sol que já se pôs,
Quero as flores que não colherei jamais.
De tudo, sou o pouco que fica
Sou o barco velho que na praia apodreceu.
Vejo o fim que tudo me indica
Quero o canto do riso que já morreu.
E assim vou vivendo a mocidade
Nisto tudo tão velho e tão conciso
Até que a própria transitoriedade
Possa arrancar-me do meu próprio abismo.
Caminho pelas ruas ao cair da tarde com meu filho, vejo crianças. E como elas, ele é feliz. Tenho a ele e já não me sinto tão só. Mas como resistir, como não sentir a solidão que está em tudo que mais me fascina, pois que tudo que há de mais belo no universo, tanto maior seja, mais denota infinita solidão, mais me embriaga de arrebatador deslumbre. O mar e a lua, as estrelas mais distantes, aquele pântano esquecido cheirando forte a abandono, no caminho da floresta. Imensamente sós, a espera do meu olhar: compreendemo-nos.
E eu que tanto busquei ser mais que uma, sendo menos, sendo apenas metade, a esperar que alguém me completasse... Tolice. Por um momento não podia suportar inteiramente o meu próprio peso, o peso de ser quem sou, e quis ser só metade. Mas já não há aquarelas. Do meu lado outra vez o cheiro de solidão. Esta, que sempre foi verdadeiramente minha companheira. E a lua nunca duvidou conhecer inteiramente a minha essência, ainda quando eu me perdesse. No litoral, o vento sopra: o meu lugar. E lá, o silêncio rugidio do mar continua a falar sobre mim: turbulento, inconstante, solitário, permanente.
Perdi a utopia do amor
No quintal da casa de sonhos
As nuvens cinzas enfim chegam
Com o chamado da minha alma
Cansada.
Avesso
Eu vivo em um dia que passou
Quero ainda o que neste senti
Não sonho: lembro. E onde vou
Recuo, sabendo que devo seguir.
Das águas do rio me banham as passadas
Sigo nelas na balsa que afundou
E sinto a minha vista embalsamada
E minha pele o tempo já marcou.
Eu quero tudo que foi
Que nunca foi, que não é mais.
Queima-me o sol que já se pôs,
Quero as flores que não colherei jamais.
De tudo, sou o pouco que fica
Sou o barco velho que na praia apodreceu.
Vejo o fim que tudo me indica
Quero o canto do riso que já morreu.
E assim vou vivendo a mocidade
Nisto tudo tão velho e tão conciso
Até que a própria transitoriedade
Possa arrancar-me do meu próprio abismo.
sábado, 9 de outubro de 2010
O Vaso Vazio
Vagando
Porque oscilo em tudo e tanto
Alma perdida
Desleixada
Desvairada
Esvaída.
Porque descrente
De tudo que se busca
Inutilmente
Muito ofusca
O olhar dormente
Já nada incrusta
À mente
Doída
Alheia
Rendida.
Vagando
Porque renego toda certeza
Repleta
De aspereza
Incompleta.
Porque de tudo
O que fica
É mesmo a procura
E nenhuma cura
Me virá abrandar
A tortura constante
De nada encontrar.
E de tudo que desisto
Só não deixo de pensar
Onde me irá levar
Esse tormento
De ser
(vadio intento)
racional?
Oscilando em tanto instante
Que já não firmo
Nem penso idéia
E um qualquer colibri
Cruza um céu não longe
Vem me dizer
A boca só fala
Do que está cheio o coração:
Emudeci.
Dois mil passos no mesmo rumo
Toda velocidade é lenta
Chove, sopra, chove...
E a possibilidade me atormenta.
(É a possibilidade
Que atormenta.)
sexta-feira, 8 de outubro de 2010
Entrelinhas
(antiguinhos)
Quantas vezes voamos juntos
Em mil loucuras vividas
Com a alma a dois repartida
Quantas vezes, quantas vias...
E os meus olhos te seguindo
Quantas vezes num conjunto
De tristezas e alegria?
Quantas vezes entre teus braços
O meu corpo desvalia
Entre vias, entre laços
Entrelinhas de abraços
Entre o mundo que vivia...
Que existia por nós dois
Que agora está desfeito...
Entre tudo que não passa
Entre tanto ‘pra depois’
Como pensamento meu
Não tem jeito...
Entre olhos: O Adeus.
Camila Dantas
********************************************
NASCENTE
Um último sol nos chamou
Deixei-o ir.
Quando na brisa ecoou
A voz que senti
A julgar-nos amor
Mandei-te partir.
Pois há tanto que não sabes...
Tanto que não me podes crer
Que não sou a que te vê
Que não amo o que te encerra...
Como o ciclo da torrente
Quero só o que tu sentes
Como quer ao mar, a serra.
Como quero, displicente
Os teus olhos tão dormentes
O teu colo tão carente
Te mergulho e não me perco
Trazendo segura o beijo
Do desejo da nascente
Da nascente que sangrava
Em riacho converteu
Tuas águas à deriva
Vieram a córrego meu.
E eu, que descuidada!
Sabendo-te bem querer
Não soube, porém, tresloucada
Deixar tanta água correr.
Vendo além o pantanal triste
Que guarda as águas prisioneiras
Meu coração ainda insiste
Na moléstia forasteira.
E agora, como fugi-la?
Como tirar do amor o desatino
Que desafia o sopro de qual vento
Venha dizer-lhe:
"não é este seu destino"?
Camila Dantas
********************************
VIS ILUSÕES
Calo-me.
Mas há o peito.
Silêncio...não é ausência.
Descrença
Se me alimenta
Doença não é amor.
Lamento-me.
Mas resto e insisto.
Vertigens...mas sobrevivo
Ambíguos
Todos sentidos
Vencidos os corações.
Desolo-me.
Mas resta o tempo.
Inúteis
Todas paixões
Varões destes sentimentos
Tormentos...vis ilusões.
Quantas vezes voamos juntos
Em mil loucuras vividas
Com a alma a dois repartida
Quantas vezes, quantas vias...
E os meus olhos te seguindo
Quantas vezes num conjunto
De tristezas e alegria?
Quantas vezes entre teus braços
O meu corpo desvalia
Entre vias, entre laços
Entrelinhas de abraços
Entre o mundo que vivia...
Que existia por nós dois
Que agora está desfeito...
Entre tudo que não passa
Entre tanto ‘pra depois’
Como pensamento meu
Não tem jeito...
Entre olhos: O Adeus.
Camila Dantas
********************************************
NASCENTE
Um último sol nos chamou
Deixei-o ir.
Quando na brisa ecoou
A voz que senti
A julgar-nos amor
Mandei-te partir.
Pois há tanto que não sabes...
Tanto que não me podes crer
Que não sou a que te vê
Que não amo o que te encerra...
Como o ciclo da torrente
Quero só o que tu sentes
Como quer ao mar, a serra.
Como quero, displicente
Os teus olhos tão dormentes
O teu colo tão carente
Te mergulho e não me perco
Trazendo segura o beijo
Do desejo da nascente
Da nascente que sangrava
Em riacho converteu
Tuas águas à deriva
Vieram a córrego meu.
E eu, que descuidada!
Sabendo-te bem querer
Não soube, porém, tresloucada
Deixar tanta água correr.
Vendo além o pantanal triste
Que guarda as águas prisioneiras
Meu coração ainda insiste
Na moléstia forasteira.
E agora, como fugi-la?
Como tirar do amor o desatino
Que desafia o sopro de qual vento
Venha dizer-lhe:
"não é este seu destino"?
Camila Dantas
********************************
VIS ILUSÕES
Calo-me.
Mas há o peito.
Silêncio...não é ausência.
Descrença
Se me alimenta
Doença não é amor.
Lamento-me.
Mas resto e insisto.
Vertigens...mas sobrevivo
Ambíguos
Todos sentidos
Vencidos os corações.
Desolo-me.
Mas resta o tempo.
Inúteis
Todas paixões
Varões destes sentimentos
Tormentos...vis ilusões.
quarta-feira, 6 de outubro de 2010
Amiga
Que bom você ter me acompanhado esses anos todos, ainda que de longe. É como se você fosse meu anjo protetor, e eu sempre teimando em fazer tudo errado. Que bom te ver tão bem, eu ando muito bem sim. Posso ainda não saber olhar as estrelas sem querê-las mais perto, mas venho sendo até feliz, no saldo final.
Lembra quando a gente se reunia pra estudar? Você sempre reclamando da minha falta de concentração. E porque me concentro em todas as coisas tenho dificuldades em eleger só uma. E eu fazia sua sobrancelha e você pintava meus olhos enquanto dizia o quanto eu era fora de moda e vivia mais dentro dos meus livros de romance do que do lado de fora.
Lembro das nossas conversas e o quanto podíamos andar o bairro inteiro a tarde toda sem perceber, papeando todas as coisas. Hoje os meus pés se acostumaram a não ir muito longe, assim desaprendi também a dançar. Lembra o quanto você queria que eu te ensinasse?
Mas além e adiante disso tudo tenho tido até muita sorte. Você sempre dizia que de nada me valia um bom cérebro quando se tinha um coração irracional que o esmagava. Hoje eu bem sei. Ah, você sempre com os pés no chão (de vez em quando esticando muito seus braços para segurar os meus e me puxar de volta).
Você sempre esteve certa em todas as certezas. E eu completamente certa da beleza dos meus erros. Eu com aquela minha psicose pelos anjos caídos, na beleza das asas maculadas, ateava fogo em meu próprio corpo, sempre a partir do estômago. E você dizia: você vai se machucar. E eu mesmo assim pulei. E me esborrachei. Mas...to aqui. E me parece que quando a gente conhece a queda passa a não ter mais medo dela. É aí que está o perigo.
Talvez a gente demore a se ver. Você em outro estado, eu sempre por aí sem rumo certo. Talvez nossos filhos já saibam andar de bicicleta ou quem sabe estarão chegando em casa de manhã. Isso não sabemos. O que eu sei é que você vai ser sempre essa velhinha que me ensina o caminho, que nunca precisou trilhar o erro pra saber o que é melhor pra você. Aquela que vai me acudir e sempre me mandar criar juízo, e aposentar esse sentimentalismo violento. Aquela que faz parte da minha vida, por mais por fora que pareça em alguns momentos. Aquela que um dia veio pra ficar.
Lembra quando a gente se reunia pra estudar? Você sempre reclamando da minha falta de concentração. E porque me concentro em todas as coisas tenho dificuldades em eleger só uma. E eu fazia sua sobrancelha e você pintava meus olhos enquanto dizia o quanto eu era fora de moda e vivia mais dentro dos meus livros de romance do que do lado de fora.
Lembro das nossas conversas e o quanto podíamos andar o bairro inteiro a tarde toda sem perceber, papeando todas as coisas. Hoje os meus pés se acostumaram a não ir muito longe, assim desaprendi também a dançar. Lembra o quanto você queria que eu te ensinasse?
Mas além e adiante disso tudo tenho tido até muita sorte. Você sempre dizia que de nada me valia um bom cérebro quando se tinha um coração irracional que o esmagava. Hoje eu bem sei. Ah, você sempre com os pés no chão (de vez em quando esticando muito seus braços para segurar os meus e me puxar de volta).
Você sempre esteve certa em todas as certezas. E eu completamente certa da beleza dos meus erros. Eu com aquela minha psicose pelos anjos caídos, na beleza das asas maculadas, ateava fogo em meu próprio corpo, sempre a partir do estômago. E você dizia: você vai se machucar. E eu mesmo assim pulei. E me esborrachei. Mas...to aqui. E me parece que quando a gente conhece a queda passa a não ter mais medo dela. É aí que está o perigo.
Talvez a gente demore a se ver. Você em outro estado, eu sempre por aí sem rumo certo. Talvez nossos filhos já saibam andar de bicicleta ou quem sabe estarão chegando em casa de manhã. Isso não sabemos. O que eu sei é que você vai ser sempre essa velhinha que me ensina o caminho, que nunca precisou trilhar o erro pra saber o que é melhor pra você. Aquela que vai me acudir e sempre me mandar criar juízo, e aposentar esse sentimentalismo violento. Aquela que faz parte da minha vida, por mais por fora que pareça em alguns momentos. Aquela que um dia veio pra ficar.
terça-feira, 5 de outubro de 2010
Ela já não sabia mais insistir na própria morte. Descobria que queria desesperadamente viver. Queria ir além de admirar os fascinantes precipícios, queria conhecer outros crepúsculos, tinha a sede de cores novas, de contar novamente as estrelas. Descobria que ainda respirava e começava a tomar fôlego fundo. Não dava mais pra retroceder. Acordava.
Então lembrava de quando se deixou arrastar pela lama, para o pântano. Jamais encontrou as águas cristalinas e tranqüilas que buscava. Não podia, não seria, não era o amor. Nem tudo que escapa ao controle da amizade é amor. Muito pouco o é.
Não sabia fechar aquela porta. Sim, a porta, porque as janelas estavam sempre fechadas. Se alguma houvesse aberta na certa um dos dois teria se atirado. Mas ela as fechava cuidadosamente mesmo quando alguém insistia em bater. As fechava cuidadosamente a cada dia que saía e depois fechava a porta atrás de si, sem conseguir deixar lá dentro todas as lágrimas. São essas que às vezes nos traem, e escorrem a verdade salgada.
- e o que havia feito de si?
O que sobrou ela enfiou em alguma gaveta. Mas aqueles CDs guardados teimavam em tocar na sua cabeça. E as cinzas das bobas cartas de amor queimadas ainda cheiravam forte, teimosas. Guardou tudo, escondeu tudo. Ela mesma escondeu-se. Porque um dia ele disse que tudo aquilo eram bobagens- e tudo aquilo era tão ela. Tudo isso porque um dia sonhou demais, idealizou demais. Porque achou que podia em si com o mundo inteiro nas costas. E na verdade um sonho que tem o poder da liberdade, pode ser destruidor: escraviza. As pessoas seguem insistindo em caminhos tortos, por medo do fim, por medo do que essa palavra tão pequena encerra. O fim é desastroso. É terrivelmente doloroso. E quando a dor a dois já há muito tempo é maior que a dor do nunca mais, não há mais o que temer.
Não posso mais fingir que não há dor. Quero olhá-la de frente. Preciso saber que sou mais forte.
----------------------------------------
Apesar de você
Se eu pudesse fugir e te levar comigo
Se eu pudesse alcançar o fim do sol contigo
Se eu pudesse reinventar o meu destino...
Se eu pudesse ousar te amar
E estar contigo noutro lugar
Talvez não precise ser tão longe...
Se eu quisesse não calar essa idéia
Tão quieta, tão muda e sem pretensão
E mergulhar nesse caminho
E recomeçar agora...
Se eu pudesse não ver tudo tão real
Se eu fosse como todos, simplesmente normal
Se eu não pensasse tanto
Não temesse tanto
Se eu não me doasse tanto...
Se eu pudesse querer viver
Me atirar sem me importar
Nenhum medo de cair, nenhum medo de voar
Amar só por amar,
sem sentido, sem limites, sem explicação...
Se eu pudesse te dizer como agir
Se eu pudesse te contar tudo o que eu quero
Se eu pudesse saber o que eu quero...
Se eu pudesse fechar meus olhos
E não pensar, e me deixar querer
Se eu pudesse te querer, apesar de você,
Apesar de você...
-------------------------------------------------
E me vejo aqui nessa terra hostil, de um calor implacável, desses onde não há lugar para flores. E eu em vão as procuro na floresta, com meus olhos ansiosos seguindo a poeira da estrada, em vão. Elas estão muito longe – e eu invariavelmente longe delas. Tento redescobrir o ocaso, mas o fim de tarde aqui é de uma luz febril, e o céu perfeitamente limpo mal o posso olhar, há muito não encontro nele as cores que um dia tingiram os meus sonhos. Tenho tentado voltar pra mim, já há muito tempo me perdi, e parece difícil retomar o caminho. É que tudo que venho fazendo é tentar não ser assim tão inconstante, assim tão sentimento. Renego-me. Tentando a qualquer custo me livrar desse jeito tão meu de amar, que de tão puro é ingênuo, infantil. E se me mostram que amor e sinceridade são quase antagônicas, onde me refugio, eu que não sei separá-las uma da outra?
Que se pode fazer quando sua alma está do lado completamente oposto, transparente e vulnerável, do lado de fora? Que se pode fazer se ela teima em não obedecer e salta, e saindo pelos seus olhos, suas mãos, suas palavras, se estende para muito mais longe que a cela do seu corpo? em vão me esforço para comprimi-la, e então vejo-me de repente, oca, a cada dia que luto para matar covardemente essa saudade traiçoeira, e uma dor que de tão infinita não permito senti-la. E tanto mais finjo que não se fez sombra em mim, mas esta sombra me acompanha, nas cicatrizes do meu sorriso, nessas lágrimas que viram pântano, no brilho opaco dos meus olhos cansados. E assim se torna impossível retomar meus cacos e todo o resto que se pode juntar quando não se sabe mais pra onde ir ao se dar conta de que todo seu amor não foi suficiente para alguém.
Então lembrava de quando se deixou arrastar pela lama, para o pântano. Jamais encontrou as águas cristalinas e tranqüilas que buscava. Não podia, não seria, não era o amor. Nem tudo que escapa ao controle da amizade é amor. Muito pouco o é.
Não sabia fechar aquela porta. Sim, a porta, porque as janelas estavam sempre fechadas. Se alguma houvesse aberta na certa um dos dois teria se atirado. Mas ela as fechava cuidadosamente mesmo quando alguém insistia em bater. As fechava cuidadosamente a cada dia que saía e depois fechava a porta atrás de si, sem conseguir deixar lá dentro todas as lágrimas. São essas que às vezes nos traem, e escorrem a verdade salgada.
- e o que havia feito de si?
O que sobrou ela enfiou em alguma gaveta. Mas aqueles CDs guardados teimavam em tocar na sua cabeça. E as cinzas das bobas cartas de amor queimadas ainda cheiravam forte, teimosas. Guardou tudo, escondeu tudo. Ela mesma escondeu-se. Porque um dia ele disse que tudo aquilo eram bobagens- e tudo aquilo era tão ela. Tudo isso porque um dia sonhou demais, idealizou demais. Porque achou que podia em si com o mundo inteiro nas costas. E na verdade um sonho que tem o poder da liberdade, pode ser destruidor: escraviza. As pessoas seguem insistindo em caminhos tortos, por medo do fim, por medo do que essa palavra tão pequena encerra. O fim é desastroso. É terrivelmente doloroso. E quando a dor a dois já há muito tempo é maior que a dor do nunca mais, não há mais o que temer.
Não posso mais fingir que não há dor. Quero olhá-la de frente. Preciso saber que sou mais forte.
----------------------------------------
Apesar de você
Se eu pudesse fugir e te levar comigo
Se eu pudesse alcançar o fim do sol contigo
Se eu pudesse reinventar o meu destino...
Se eu pudesse ousar te amar
E estar contigo noutro lugar
Talvez não precise ser tão longe...
Se eu quisesse não calar essa idéia
Tão quieta, tão muda e sem pretensão
E mergulhar nesse caminho
E recomeçar agora...
Se eu pudesse não ver tudo tão real
Se eu fosse como todos, simplesmente normal
Se eu não pensasse tanto
Não temesse tanto
Se eu não me doasse tanto...
Se eu pudesse querer viver
Me atirar sem me importar
Nenhum medo de cair, nenhum medo de voar
Amar só por amar,
sem sentido, sem limites, sem explicação...
Se eu pudesse te dizer como agir
Se eu pudesse te contar tudo o que eu quero
Se eu pudesse saber o que eu quero...
Se eu pudesse fechar meus olhos
E não pensar, e me deixar querer
Se eu pudesse te querer, apesar de você,
Apesar de você...
-------------------------------------------------
E me vejo aqui nessa terra hostil, de um calor implacável, desses onde não há lugar para flores. E eu em vão as procuro na floresta, com meus olhos ansiosos seguindo a poeira da estrada, em vão. Elas estão muito longe – e eu invariavelmente longe delas. Tento redescobrir o ocaso, mas o fim de tarde aqui é de uma luz febril, e o céu perfeitamente limpo mal o posso olhar, há muito não encontro nele as cores que um dia tingiram os meus sonhos. Tenho tentado voltar pra mim, já há muito tempo me perdi, e parece difícil retomar o caminho. É que tudo que venho fazendo é tentar não ser assim tão inconstante, assim tão sentimento. Renego-me. Tentando a qualquer custo me livrar desse jeito tão meu de amar, que de tão puro é ingênuo, infantil. E se me mostram que amor e sinceridade são quase antagônicas, onde me refugio, eu que não sei separá-las uma da outra?
Que se pode fazer quando sua alma está do lado completamente oposto, transparente e vulnerável, do lado de fora? Que se pode fazer se ela teima em não obedecer e salta, e saindo pelos seus olhos, suas mãos, suas palavras, se estende para muito mais longe que a cela do seu corpo? em vão me esforço para comprimi-la, e então vejo-me de repente, oca, a cada dia que luto para matar covardemente essa saudade traiçoeira, e uma dor que de tão infinita não permito senti-la. E tanto mais finjo que não se fez sombra em mim, mas esta sombra me acompanha, nas cicatrizes do meu sorriso, nessas lágrimas que viram pântano, no brilho opaco dos meus olhos cansados. E assim se torna impossível retomar meus cacos e todo o resto que se pode juntar quando não se sabe mais pra onde ir ao se dar conta de que todo seu amor não foi suficiente para alguém.
domingo, 26 de setembro de 2010
lamento do lírio branco
Lírio de brancas asas, flor viajora
Que não descansas o pensamento incessante
Não te cessa esse querer de voar?
Não te quedas pelo vil medo de amar?
Lírio de brancas asas
Que não repousas de tua ânsia fatigante
Onde vais, assim, sem meu olhar?
Onde irei eu, adiante, sem te encontrar?
- Vou em busca do meu bem de lutar
Penso as cores e as flores que trarei
Levo no peito os amores que deixei
Deixo contigo a esperança do porvir
Do retorno de quem não quis partir.
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